Manhattan x Maratham

Textos

"Meus Pássaros"
“MEUS PÁSSAROS”

Está entre aspas para tirar o significado de posse que o pronome “meu” dá, pois não são meus, passaram pela minha vida, mas não foram meus, e também as aspas lembram pássaros, pois estão sobre as linhas das letras.

Pássaros é uma das minhas paixões, desde criança me apaixonei por eles, lembro que nas minhas férias escolares, quando ia para as fazendas da família no interior de Minas, encantava-me com os canarinhos da terra, com as tirivas, com os pássaros pretos, até que uma tia muito generosa me deu todos os pássaros da sua fazenda, todos aqueles que voavam livres por seu sitio, eu me senti muito importante por ser dono deles. Hoje, já adulto, volto lá e falo para os primos, as benfeitorias, o cafezal, a terra, os animais domésticos são seus, mas estes pássaros que voam e cantam livres aqui, não, esses são meus.

Adoro os recantos onde os canários da terra pintam de verde amarelo e vermelho os terreiros em busca de alimentos que outros apaixonados jogam para eles. Uma vez pedi para os tios, proprietários destas fazendas cafeeiras, um cantinho para eu fazer um singelo rancho para ficar a observá-los, projeto que não foi em frente, não por eles, mas por mim, mais uma desistência dentre tantas outras.

Há uma questão sobre pássaros pela qual ainda não me defini se devemos criá-los em cativeiro ou não, se não, podem ocorrer extinções de espécies devido à expansão das cidades e das atividades agropecuárias, o que vem ocorrendo, dentre elas o do curió, do bicudo, do azulão...

Teve uma época que quis criar curiós em cativeiro, não tive sucesso. Adquiri um casal com a afirmação que o macho era um pássaro especial, mas tal não se confirmou. Depois de muitas tentativas infrutíferas desisti desta criação, procurei alguém que se interessasse pelo casal, e em troca pedi filhotes de canários da terra. Consegui vinte deles, os coloquei num caramanchão telado o qual enchi de ninhos, com intenção de abrir as telas quando a primavera chegasse, mas antes dela chegar, observei que a tolerância não era uma característica da espécie, eles começaram a brigar  na disputa das fêmeas e dos ninhos, resolvi abrir o telado antes que se perdessem muitos filhotes nesta guerra grupal. Rapidamente os casais se espalharam pelas casas vizinhas, cada um definindo seu território que não podia ser invadido por outros. Em poucos anos tínhamos repovoado a região, que outrora era rica destes pássaros.

Há pouco tempo ganhei um sabiá coleira, que cantava muito, mas ao trabalhar um texto sobre pássaros em liberdade fiquei com remorsos em conservá-lo preso e dei uma oportunidade a ele de se libertar, ele aproveitou e foi-se, eu me arrependi, senti muita falta e, ele também não soube o que fazer com a sua liberdade, procurou uma gaiola do vizinho e pousou sobre ela a pedir para lá entrar. Fiquei a ouvi-lo no vizinho, até que me expliquei e o amigo o devolveu.

Uma vez presenteei minha mãe, uma mineira que mora no Paraná, com um canarinho da terra resgatado de uma rinha de briga, é, tem gente que faz isto, põem eles para brigarem até que um morra ou corra do pau. Esse canarinho foi um grande companheiro de minha mãe e de sua irmã por muitos anos, amenizava com seu canto a saudade dos sons das montanhas de Minas Gerais, faleceu recentemente de velhice, e foi enterrado de baixo de árvores em uma pracinha próximo do apartamento delas.

Pássaros, para mim a vida perderia muito do encanto sem seus cantos.

  
Defranco
Enviado por Defranco em 13/12/2011
Alterado em 24/02/2016
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