Manhattan x Maratham

Textos

Fotografia ou Topografia
Republicado com copidesque.
(copidescado pela Fábrica de Textos em 11/11/2011)

Em 1971, eu e meu colega João Adailtom  éramos dois jovens estudantes de 17 e 18 anos.   Estávamos no segundo ano do curso de agrimensura do Instituto Politécnico de Londrina. Nessa época decidimos nos aventurar nos primeiros passos de nossas carreiras.
João era o melhor aluno de nossa classe e eu decidi comprar um aparelho de topografia usado, que seria o  passaporte para nossa primeira experiência profissional. Apesar de sermos apenas estudantes de um curso técnico, nos considerávamos verdadeiros engenheiros e foi com esse espírito que arrumamos nossas malas e desembarcamos na pequena Ivatuba, localizada no norte do Paraná às margens do rio Ivaí.
O prefeito da cidade era alguns poucos anos mais velhos que nós e detinha o título de um dos mais jovens do Brasil. Apesar de nossa falta de experiência, ele nos contratou para fazermos um levantamento planialtimétrico das ruas de Ivatuba.
Chegamos a Ivatuba em uma tarde ensolarada sem imaginar que, pouco tempo depois, teríamos de fugir às pressas de lá. O prefeito nos recebeu e ofereceu duas opções de hospedagem. A primeira era uma casa antiga de madeira, que havia sido transformada em pensão. A outra era de alvenaria e ficava em cima do único cinema da cidade.
Meu colega queria ficar na pensão de madeira, que tinha fama de ter uma ótima cozinheira. Meu voto era para a de alvenaria, pois sabia que lá serviam um guaraná geladinho, por conta da prefeitura.  Acabamos ficando com a segunda opção.
Depois de uma boa noite de descanso, começamos o dia tomando café com pão caseiro. A dona da pensão nos chamava de doutores e nós não desmentíamos. Cheios de orgulho assumíamos a postura de engenheiros.
Para nos ajudar na empreitada, o jovem prefeito nos arrumou um auxiliar para transportar a régua de medição dos desníveis do solo. Conhecida como “mira”, esta régua de quatro metros de comprimento tem três pedaços que se encaixam um no outro.
Marcionílio, nosso ajudante, era um nordestino atarracado, de boa prosa e que parecia ser muito querido na cidade. Com a sua simpatia constante, foi ele quem nos aproximou dos outros habitantes da cidade. As pessoas perguntavam o que estávamos fazendo e ele respondia.
- Os doutores estão marcando as ruas para vir o chão preto!
Todos ficavam satisfeitos com a proximidade da chegada do asfalto, coisas dos tempos modernos. Também ficavam admirados e comentavam sobre a pouca idade dos “doutores”. Quando isso acontecia costumávamos dizer para Marcionílio.
- Aqui não é a cidade do prefeito mais novo do Brasil? Pois é, agora tem os engenheiros mais novos também!  

Marciolínio estava cada vez mais próximo de nós. Onde íamos, lá estava ele, carregando a nossa “mira”. Uma de nossas diversões era ver as meninas no horário de saída da Escola Normal e do ginásio. Mas ficar ali parado de bobeira não pegaria bem. Foi quando percebi que poderia utilizar a  nossa máquina de topografia para algumas  aventuras.
O aparelho de topografia ficava sobre um tripé e era muito parecido com as antigas máquinas de fotografia, os chamados lambe-lambes. As pessoas perguntavam se ela tirava fotografia e eu dizia que sim. João não aprovava muito, mas não me desmentia.
Uma vez deixei Marcionílio olhar na lente do equipamento. Ele ficou assustado de ver tudo de cabeça para baixo, já que o aparelho tinha um jogo de lentes que invertia a imagem.
- Uai doutor, o mundo aqui dentro vira de cabeça para baixo? – perguntou, incrédulo.
- É assim mesmo Marcionílio. O bom é quando vamos ver uma menina de saia rodada! – brinquei.
- É verdade? Então isto eu quero ver também – retrucou o ajudante, com carregado sotaque nordestino.
- Pode não Marcionílio. Isso é só para os doutores.
Conforme ficávamos mais conhecidos na cidade, algumas pessoas vinham pedir para eu tirar fotografias delas. De tardinha, quando estávamos terminando nossa jornada de trabalho, sempre aparecia mais alguém querendo ser clicado. Uns vinham com cavalo bem arreado, outros pegavam carros emprestados para fazer pose.
Eu não deixava por menos e estimulava a vaidade do personagem da foto. Em seguida, abria e fechava uma janela com um espelho, que usávamos para jogar luminosidade para dentro do aparelho.
- Pronto! – dizia, assim que fazia a foto fictícia.
As pessoas faziam cara de quem não estava acreditando que dali sairia uma fotografia realmente.
- É assim mesmo, essa máquina é moderna. – eu dizia, com ar confiante.
- Quando vão ficar pronta as fotos doutor? – costumavam me perguntar.
- Nós vamos levar para o laboratório em Londrina depois trazemos para vocês.
- Quanto vai ficar?
- Não se preocupem. Só vou cobrar de vocês o preço de revelação, que é menos da metade que vocês pagam por aqui.
João não estava gostando nada da história e tentava me alertar.
- Dermeval, você está arrumando confusão para nós. – dizia preocupado.
- Não esquenta João, depois eu falo que o filme queimou. Ninguém está pagando mesmo.
Um dia, antes mesmo que pudéssemos tomar nosso café da manhã, as preocupações de João mostraram que tinham fundamento. O prefeito chega à pensão com ares de poucos amigos.
- Meninos, o que vocês estão aprontando? – indagou, com seriedade.
- Nada seu prefeito, só estamos brincando com os amigos de tirar fotografia. – respondi, tentando tranqulizá-lo.
- Pois é, o fotografo da cidade está reclamando de vocês. Ele está perdendo a clientela dele. Eu sei que essa máquina de vocês não tira foto nenhuma. Vocês vão me complicar, é melhor parar com isto.
- Pode deixar seu prefeito, vou falar que acabou o nosso filme. – argumentei, pensando nas normalistas, com suas saias preguiadas, que deixaria de impressionar.
Paramos com a brincadeira, mas uma vez não pude evitar. Uma normalista linda – Dora era o nome dela – se aproximou de mim e fez o pedido que seria a ruína da nossa primeira empreitada profissional.
-Seu menino engenheiro, tira uma foto minha?
Pensei comigo que não tinha como negar.
- Moça, acabou o filme, mas eu reservei um especial para você. Só precisamos escolher um lugar bem bonito. Ah, e é melhor que ninguém nos veja, pois o fotógrafo da cidade reclamou de nós para o prefeito.
O cenário escolhido para a fotografia da normalista foi a entrada da cidade, que tinha um portal bem florido. Marquei uma hora para o dia seguinte. Segui sozinho para o local combinado, carregando o aparelho nas costas.  
Chegando lá, nada da moça...Esperei, mas já preocupado com as cobranças de João. Quinze minutos depois,  ela chegou. Linda com o uniforme de normalista, saia pregueada azul-marinho, camisa branca engomada, cabelo arrumado e de batom vermelho, o que não era muito usual na época.  
- Eu que, em Londrina, nunca fiz sucesso com as meninas , estou aqui com essa beldade. Parece um sonho! – pensei.
Pedi para ela sentar sobre a letra “b”, de Ivatuba. Abri e fechei a janelinha rapidamente. Depois falei que ia tirar uma foto dela comigo.Para isso, disse que iria ativar um disparador automático, com contagem de tempo. Corri e sentei na letra “a” ao lado dela. Na empolgação passei meu braço pelos ombros da moça. Muito atrevimento meu! – cheguei a pensar.
O falso disparador levou uns cinco minutos para funcionar. Não notei que estávamos sendo observados e ainda tirei muitas outras “fotos” dela.
Ela estava ficando preocupada com o preço das fotos e, já desconfiada, perguntou.
- Menino, isso não vai ficar muito caro?
- Não se preocupe, é um presente meu para você! – respondi, em tom tranqulizador.

Quando me dei conta da hora senti à distância que João já estava uma fera. Resolvi, então, encerrar a sessão de fotos. Senti que a amizade já estava sedimentada e, resolvi convidá-la para ir ao cinema comigo.
Ela rejeitou o convite de pronto, falando que estava prometida para um rapaz.
Nos despedimos e, sozinho mais uma vez, voltei para a cidade. Ao chegar, encontrei João explodindo de raiva.
- Precisamos terminar o serviço e você tirando fotos. Assim não dá!
- Calma João!  Estas fotos valeram a pena, a moça era muito bonita.
- Que fotos?
- Estão aqui João.  – falei apontando a cabeça – Essas nunca mais vou esquecer...
Voltamos para o trabalho. Durante o resto da tarde João não trocou uma palavra comigo. A rotina do trabalho nos ensinou a nos comunicar com gestos, e quando ele precisava falar  algo mais detalhado comigo, usava o Marcionílio como mensageiro.
Ao escurecer, voltamos para a pensão. A imagem de Dora não saia da minha cabeça. Que diabo de promessa era aquela? Sentia vontade de raptá-la para que não ficasse com nenhum outro rapaz, para quem havia sido prometida.
Estávamos muito cansados e fomos nos deitar cedo. João pegou no sono rápido. Eu não conseguia dormir, pois só pensava na normalista. De repente, fui tirado dos meus devaneios  com forte batidas na porta de nosso quarto. Pulei da cama, abria a porta e dei de cara com o prefeito.
- Você não tem jeito mesmo não é rapaz? Voltou a arrumar confusão para mim. Pode arrumar suas coisas que vou levá-los para uma cidade vizinha. – ordenou o prefeito, apontando nossas malas.
- O que é isso prefeito? Foram – apenas umas fotos inocentes, não aconteceu nada. – tentei apaziguar.
- Ainda não aconteceu, disse o prefeito - mas basta o Ricardo saber disso que ele vai querer tirar satisfação com você, além de querer cópias do filme. E aí o que você vai fazer?
Ricardo era filho do ex -prefeito, inimigo declarado do atual, que quebrou uma hegemonia quase centenária de família.
- Desculpe, foi mal.
- Desculpe! Você não sabe o que é tirar satisfação aqui! Vocês estão correndo riscos.
- Arrumem suas coisas que vou levá-los para Dr. Camargo! E chamem outro colega para terminar o serviço, pois vocês não podem mais por os pés nesta cidade!
Enquanto eu tentava argumentar, João já estava arrumando as coisas, furioso comigo. Passamos o resto da noite em uma pensão da cidade vizinha e, no dia seguinte, seguimos rumo a Londrina. Chegando lá, arrumamos um colega que já tinha alguma experiência, o que o tornava apto a terminar o serviço que deixamos para trás.  
Não sabemos o que os moradores de Ivatuba ficaram pensando de nós ou se ficaram esperando a revelação das falsas fotografias que tirei. O que temos certeza é que nosso colega disse a todos que nós, os “doutores”, tínhamos sido despedidos da empresa asfaltadora.
Mesmo que eu  quisesse  não poderia esquecer das minhas aventuras de meu primeiro emprego, pois até o final de nosso curso de agrimensura todos me chamavam de fotógrafo.
Defranco
Defranco
Enviado por Defranco em 11/11/2011
Alterado em 24/02/2016
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